Observatório Luminar
Luminar é um observatório de mídia voltado para o acompanhamento sistemático da cobertura jornalística sobre políticas públicas. Acesse clicando aqui

Carros voadores, sapatos de realidade virtual e a tal da exclusão digital

A vontade é de sentir o planeta na palma da mão | Foto: Flickr

 

Virtualidade, cibercultura, hipertextualidade, hipermídia, ubiquidade. Aqui, apenas alguns exemplos de termos cada vez mais emergentes na sociedade contemporânea. Tantos conceitos, no entanto, parecem estar ainda imersos num fluxo caótico de informações e (ausência de) delimitações. Numa sociedade que fala de códigos, algoritmos e micro-eletrônica, os conceitos integram-se e interagem entre si. Mudam-se os hábitos, as linguagens, as relações. É o que chamamos de novos tempos. Tempos esses que estão imersos na sociedade digital.

 

De fato, o desenvolvimento da tecnologia trouxe às sociedades justamente a perspectiva do futuro no presente. 2020 está chegando e não temos carros voadores (ao menos, não como meios de transporte do cotidiano), mas temos chatbots, aplicações em inteligência artificial, wearables, smarthomes e outras tantas inovações – a palavra clichê do momento – que Black Mirror é deixado pra trás e histórias são cruzadas, refazendo o posicionamento e o desenvolvimento da humanidade diante do mundo.

 

Das tantas belezas do mundo tecnológico, saltam aos olhos os sapatos de realidade virtual e as lâmpadas obedientes. A vontade é de sentir o planeta na palma da mão. Nessa geração, ele é nosso quintal. O desafio a ser enfrentado, porém, se localiza exatamente onde os olhos e os pés não alcançam. É a realidade dos 46% de lares brasileiros que permanecem desconectados e não têm acesso às Tecnologias de Informação e de Comunicação, as chamadas TICs. Elas correspondem a todos os recursos tecnológicos que interferem e medeiam as relações humanas, proporcionando a automação, a comunicação, a pesquisa e o ensino-aprendizagem.

A situação brasileira, nesse aspecto, é grave. De acordo com a Pesquisa sobre o Uso das Tecnologias de Informação e Comunicação nos domicílios brasileiros – TIC Domicílios, cujas pesquisas datam de 2005 a 2016, apenas metade dos domicílios urbanos possui computador, diminuindo para 20% nas zonas rurais. A pesquisa também leva em consideração a região, a renda familiar e a classe social dos domicílios. Aqueles que mais têm acesso à internet são a população urbana (59%), no sudeste (64%), com mais de 10 salários mínimos (97%) e classe A (98%). Os menos favorecidos são os que vivem no campo (apenas 26% acessam a internet), moram na região nordeste (40%), ganham até 1 salário mínimo (29%) e pertencem às classes D e E (que, juntas, somam 23% dos acessos).

 

Na pesquisa, 50% dos indivíduos alegaram que nunca utilizaram a internet por falta de necessidade, enquanto 62% declararam falta de interesse; 72%, falta de habilidade com o computador, 38%, por não ter onde usar; e 45%, por ser muito caro. O primeiro pensamento é que um resultado desse não poderia chegar mais longe de uma realidade de carros voadores. O segundo, no entanto, é contraditório: é que Minas Gerais, o mesmo estado que sedia três parques tecnológicos em operação e outros três em implantação (são estes, respectivamente, o BH Tec, o TecnoParq, o PCTI, o Lavrastec, o PCTJFR e o Parque Tecnológico de Uberaba) apresenta altos índices de exclusão digital, principalmente no norte do estado . Entretanto, é ainda um dos estados que mais conta com programas federais, estaduais e privados de inclusão digital, como o Projeto Inclusão Digital MG, o BH Digital, o Gesac, os Telecentros de Informação e Negócios (TIN) e o Oi Conecta. As políticas públicas são de grande valia nesse quesito.

 

A esse ponto, vale lembrar que inclusão digital abrange o processo de democratização do acesso às TICs, de forma a permitir a inserção de todos na sociedade da informação. Tanto é importante a inclusão digital que configura hoje como premissa da cidadania – ter acesso e desenvolver potencialidades diante da tecnologia e das redes é parte fundamental de ser cidadão, à medida que este se transforma em receptor e produtor do conhecimento. Conhecimento esse, ainda, conectado a grande parcela da população mundial, permitindo interações em níveis de diversas culturas. Ao ser humano, comunicável desde o princípio dos tempos, como uma proposta poderia ser mais atraente?

 

Como sugestões de alternativas às deficiências sociais, os olhares são multifacetados. Para os estudos da Policy Papers Unesco, focados na sociedade digital e nos hiatos e desafios da inclusão digital na América Latina e no Caribe, os problemas apresentados aos causadores e resultados da exclusão digital – citando alguns, os déficits de infra-estrutura e comunicação, a falta de habilidades e competências infocomunicacionais, a falta de capital humano e de regulamentação e o ambiente regulatório inadequado – podem ser solucionados por meio de inovações tecnológicas e comerciais e novos modelos de colaboração entre os governos e o setor privado, sem perder de vista o marco civil da internet. Também são debatidas as políticas públicas de inclusão digital*, os subsídios às TICs e à conexão domiciliar, a criação de aplicativos e conteúdo para as minorias digitais e a disponibilidade de softwares livre-gratuitos. Tudo isso, claro, adaptado às dificuldades de cada município.

 

Hoje, mais se têm dúvidas que certezas acerca da sociedade digital. Mas é certeiro, desde agora, que a exclusão digital impede a redução de exclusões sociais, uma vez que todo tipo de atividade, com o passar do tempo, tem mudado para a rede. Ao se excluir da rede, se exclui da cultura, da economia, da história, da construção do conhecimento e das relações humanas. Informação, direito básico da constituição e objeto de desejo dos seres humanos desde que a gente se entende assim. A tecnologia é metamórfica, se adapta às novas estruturas. Assim é também a opressão. Nossos olhos devem sempre estar atentos à realidade de outros olhos. Estejamos atentos. Vivemos tempos de 20 anos em 2.

 

*Sobre esse assunto, é interessante ler mais no artigo Políticas Públicas de Inclusão Sociodigital: os pontos de acesso em Uberlândia, MG, de autoria de Cindhi Belafonte, Mayra Costa e Adriana Omena dos Santos e disponível na obra Múltiplos Olhares, de organização de Adriana Omena, Gerson de Sousa e Mirna Tonus.

 

Agência Conexões
agenciaconexoes@gmail.com
No Comments

Post A Comment