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Com intensificação de campanha Brasil atinge meta de vacinação, mas situação ainda é preocupante

 

 

O Brasil enfrenta dois surtos de sarampo simultâneos. Até 30 de outubro, foram registrados 2.564 casos de sarampo em todo o país. No Amazonas, foram 2.126 e em Roraima, 345. Nos dois estados somados ainda há 7.661 casos em investigação. Segundo o Ministério da Saúde, “todos [os casos] estão relacionados à importação”.

O país, que em 2016 recebeu da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) um certificado de eliminação total do Sarampo, justifica os atuais surtos pela entrada de imigrantes venezuelanos que possuíam o vírus, segundo o Ministério da Saúde.

Até meados deste ano, apenas sete estados brasileiros atingiram a meta de imunização de 95%, estipulada pelo Ministério da Saúde, contra o Sarampo e a Poliomielite.  Por essa razão, neste período o Ministério prorrogou e intensificou a Campanha Nacional de Vacinação para os estados e municípios que ainda estavam abaixo da meta entre o público menor de cinco anos de idade.

Foram 13,2 milhões de doses da vacina tríplice distribuídas entre nove estados: Rondônia, Amazonas, Roraima, Pará, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Sergipe e o Distrito Federal, entre janeiro e outubro, para atender a demanda dos serviços de rotina e a realização de ações de bloqueio, intensificação e campanha de vacinação para prevenção de novos casos de sarampo. Destes, apenas o Distrito Federal não atingiu a meta mínima de imunização.

 

Metas não alcançadas

 

Segundo dados do Programa Nacional de Imunizações (PNI) , apenas as vacinas da BCG e Tríplice Viral (D1) atingiram a meta de imunização estipulada pelo Ministério da Saúde, de uma cobertura mínima de 95% da população. E, atualmente, doenças erradicadas retornam ao solo brasileiro. O biólogo Davi Calazans Menescal Linhares, dono do canal “Ponto em Comum”, que fala sobre ciência de maneira didática na plataforma online Youtube lista dois possíveis problemas: a campanha de vacinação ou a população.

Ele argumenta que se o problema for a campanha de vacinação, os responsáveis devem iniciar estudos que sinalizem quais as falhas na comunicação da mensagem sobre a importância e responsabilidade no ato de se vacinar: “Quem sabe não haja um erro de transmissão de mensagem?”, questiona o biólogo.

Linhares revela que acredita não ser esse o principal fator que está causando uma menor taxa de vacinação, mas a falta de memória da população. “A maior parte das pessoas vivas hoje, especialmente as mais novas, simplesmente não conhecem o que é coqueluche ou paralisia infantil. Nós não temos medo da palavra ‘varíola’ pelo mesmo motivo que não tememos a palavra ‘mamute’, ambas se referem a terrores que só existem em páginas de livros e na internet”, opina.

 

Isso significa que as vacinas foram tão eficazes em eliminar diversas doenças da sociedade que acabaram eliminando-as também da lembrança popular. “Por isso uma mãe hoje tem o luxo de poder achar que não precisa mais vacinar sua filhinha porque nunca viu alguém com essas doenças imunopreveníveis. Ou seja, as vacinas são vítimas do seu próprio sucesso”, argumenta o biólogo.

 

O que é a vacinação?

Para explicar é necessário, primeiro, entender o que é o sistema imunológico. Esse sistema pode ser compreendido como uma rede de células que atuam na defesa do organismo. “Por exemplo, um certo tipo de bactéria entra em contato com a sua pele e seu sistema imunológico percebe aquilo como um corpo estranho. Logo, ele testa vários meios para acabar com o intruso”, explica o estudante de química, Nicolas Rocha Lacerda.

 

A defesa do organismo é realizada pelos leucócitos ou glóbulos brancos que atacam o corpo estranho: “Quando ele conclui sua missão e destrói o invasor aquela forma de combater a bactéria é memorizada. Sendo assim, sempre que você entrar em contato com aquele tipo de bactéria o seu corpo já estará preparado para se defender daquela ameaça”, conclui Lacerda.

 

A vacinação trabalha com a manipulação desse processo, de modo que o organismo saiba como combater as doenças. Lacerda explica que em laboratório é retirado um fragmento de bactérias ou vírus mortos. Essas amostras são manipuladas de forma que a possibilidade do vírus ou bactéria original estar ativo seja a mais baixa possível: “a chance de uma vacina ter algum corpo vivo é algo na casa de 1 em 100.000”, informa.

Em seguida, o vírus ou bactéria morto é aplicado em um ser humano: “o sistema imunológico imediatamente vai tentar destruir o intruso de diversas maneiras e esse período de tentativas e falhas do organismo é o tempo necessário para a vacina começar a fazer efeito” Quando ele consegue encontrar um método de aplacar a ameaça significa que a vacina está funcionando: “aquele ‘modo de batalha’ vai estar salvo no cérebro do indivíduo”, explica Lacerda.

 

A importância da vacinação

 

No século XVIII, o batizado só era realizado após o indivíduo completar sete anos de idade. Isso porque as chances dele morrer antes dessa faixa etária eram enormes: “Muita gente achava que ‘só tinha alma’ a criança que ficasse mais velha”, conta o biólogo Davi Calazans Linhares.

“A importância da vacinação é enorme! Era normal perder um filho pequeno por conta dessas mazelas. As crianças iam pra escola, cresciam, e pegavam, provavelmente, alguma doença horrível”, explica Linhares. Para o biólogo, “hoje não temos nada disso, e nunca na história a taxa de mortalidade infantil e expectativa de vida humana esteve tão alta”.

 

A professora aposentada Mércia de Jesus confirma o relato de Linhares: “Na minha época, muitas vezes, nem sabiam que doença era. A criança ficava doente e ia definhando e as pessoas faziam remédio caseiro. Muitas vezes, o doente morria sem saber a causa”. Ela recorda que quando o sarampo começou a se tornar uma doença conhecida, os médicos passaram a identificá-la pelas manchas na pele. “Na minha época de moça começou a vacinação, os pais conscientes vacinavam, mas havia quem relutasse e acabasse perdendo seus filhos para o Sarampo que matava muito!”, relembra.

 

Proteção aos mais frágeis

 

Quando um indivíduo deixa de se vacinar ele não só abre a possibilidade para se tornar um infectado, mas de se tornar um transmissor. “Existem pessoas que, infelizmente, não podem tomar vacinas, por terem alergia, estarem em um tratamento que as proíbe, ou por estarem com o seu sistema imunológico enfraquecido. Com isso, a única maneira dessas pessoas mais frágeis serem protegidas é estando cercadas de outras pessoas imunizadas”, alerta Linhares.

 

Exemplos de indivíduos enfraquecidos e que precisam da proteção pela imunização da sociedade são: “Grávidas, idosos e portadores de doenças como a AIDS que destrói o sistema imunológico, ou seja, quando uma pessoa comum teria no máximo uma gripe depois da vacina, alguém com AIDS poderia ter consequências muito graves e em extremos chegar a morte”, explica o estudante de Química, Nicolas Rocha Lacerda.  “As chances de ter alguma complicação em decorrência da vacinação é infinitamente menor que a de sofrer com a doença em si, portanto, se vacine!”, alerta Lacerda.

 

Vanessa Gianotti
vanessagianotti.jor@gmail.com
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