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Os desafios de aprender e ensinar ciência no Brasil

“Acredito que deveriam existir ações que deem mais liberdade aos professores”, afirma o professor de química, Orivaldo José da Silva Filho. | Foto: Flickr

 

Segundo o Censo da Educação Superior de 2016, no Brasil são matriculadas, a cada 10 mil habitantes, 22,1 pessoas em cursos de ciências, matemática e computação. Desses, 8,8 ingressam no curso e apenas três se formam. A procura para cursos como ciências sociais, negócios e direito representa um valor seis vezes superior aos cursos da área de exatas mencionados. Mas como explicar esses números tão desbalanceados? Para responder a essa questão é necessário investigar a base.

 

De acordo com a estudante do 9º ano, Yasmin Gonçalves: “as pessoas não gostam e têm dificuldades em ciências. Pelo menos onde eu estudo, quem se dá bem nessas matérias, normalmente é visto como uma das pessoas mais inteligentes da classe”, explica.

 

A estigmatização da ciência vem antes mesmo dela ser apresentada aos alunos. A ideia de dificuldade e que apenas um grupo seleto de pessoas muito inteligentes são capazes de aprender ainda é presente na mentalidade dos estudantes. “Essa dificuldade que os alunos apresentam se deve a diferentes motivos, entre eles, o preconceito inicial de serem matérias de difícil compreensão, sem nem mesmo ainda terem estudado”, explica o professor de física, Sidney Dourado.

 

Além disso, a desvalorização do professor, a pouca liberdade em sala de aula e a conservação da metodologia tradicional são enumerados como os principais motivos pela baixa procura em formação na área e pouca aprendizagem dos conteúdos pelos estudantes. “Infelizmente nossos docentes não são preparados de forma adequada, fazendo com que os alunos não recebam uma melhor formação e se torne mais difícil ainda o ato de aprender”, afirma o professor de química, Orivaldo José da Silva Filho.

 

Segundo Orivaldo, algumas mudanças devem ser feitas no administrativo do ambiente escolar para que seja possível a ministração de aulas de maior qualidade. “Acredito que deveriam existir ações que deem mais liberdade aos professores, no caso dos pedagogos atuantes, trabalharem para uma aula mais coerente com o que a escola busca, conciliando com que o professor acha mais apropriado. Pois muitas vezes o que acontece é de que o pedagogo atua apenas como um inspetor”, comenta.

 

A liberdade quanto ao método de ensino é essencial para professores da área científica. Muitos fenômenos são difíceis de serem compreendidos devido ao grau de abstração de seu conteúdo, por isso, ter um material didático atualizado e ilustrado é muito importante. “Antes do ensino médio, eu nunca tinha ouvido falar de física. Isso porque a escola em que estudei era privada, gente de escola estadual sofre muito mais. Tem poucas aulas, pouco material, laboratório então? Nem pensar! É muito difícil estudar algo que você não consegue ver, por exemplo, na química até hoje nosso conhecimento sobre átomo é limitado, tudo é teórico”, relembra o graduando em química do Instituto Federal Goiano (IF-GO), Jonatha Silva.

 

O método importa e o tradicional está defasado. Segundo o professor Sidney Dourado, o método “sócio-interacionista, juntamente com estudo de caso, que é abordado em certas escolas de medicina”, seria uma possível solução. “Ao invés da introdução do conteúdo, seguida pela abordagem do professor e posteriormente a aplicação de exercícios tradicionais, pega-se um fato que ocorre na sociedade e se analisa quais os fenômenos que nele estão envolvidos”, explica Dourado.

 

Muitas vezes os alunos questionam seus professores sobre a utilidade do conteúdo ensinado, em que momento isso será visto em suas vidas. “Acho que para as pessoas começarem a gostar de ciências deveríamos mostrar a elas onde ela está no dia-a-dia. Ora, tudo é ciência! Nosso corpo é uma máquina biológica, o sabão que a gente usa é química, o movimento dos corpos é física, ou seja, está em todo lugar!”, sugere Silva.

 

O estudante do curso de física, Murilo Henrique Alfredo, da Universidade Estadual Paulista (UNESP), concorda com os colegas de profissão e complementa: “o profissional dessa área deve utilizar mais aulas experimentais, pode-se também usar um método de avaliação formativa, onde não se dá nota somente pela avaliação ou certos trabalhos, mas por um conjunto de coisas como a participação durante as aulas, debates entre os alunos sobre a matéria e ter uma interação maior entre professor e aluno, o que deixa um clima mais agradável durante as aulas e não fica nada exaustivo para ambos. E, principalmente, os professores de escolas públicas terem um salário mais digno para exercer a profissão”, detalha.

 

A ciência no ENEM

 

O Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), utilizado por milhares de estudantes para garantir uma vaga em alguma  universidade, é dividido em cinco provas, com pontuações que podem variar de 0 a 1000. São elas: Ciências Humanas e suas tecnologias; Linguagens, Códigos e suas tecnologias; Matemática e suas tecnologias; Ciências da Natureza e suas tecnologias e Redação. Ao analisar os dados dos últimos quatros anos do exame, verifica-se que apenas em um ano Ciências da Natureza e suas tecnologias não obteve o pior desempenho dentre todas as outras modalidades, com uma diferença de 0,4 pontos em relação à pior nota deste ano.

 

“O Enem mudou o seu estilo de prova, muito mais contextualizado na parte de ciências, o que pode ter resultado nesses valores observados, já que ainda para a maioria dos professores antigos, suas aulas ainda pecam na parte de contextualização”, justifica Filho. O estudante Jonatha Silva vai além e traz uma justificativa histórica: “achar culpados é fácil, mas a verdadeira raiz do problema está profunda na ditadura. Que foi quando o conhecimento começou a ser codificado, ainda hoje vemos os traços: linguagem complexa e não objetiva nos livros de ciência. Isso faz com que as pessoas não gostem e não aprendam mesmo”, explica.

 

No entanto, os resultados desta dificuldade e desempenho baixo nas provas e vestibulares são irônicos: cursos nas áreas de ciências, como química, física, matemática e ciências biológicas, são mais fáceis de se garantir uma vaga, por um motivo claro: baixa procura. Os vestibulandos, muitas vezes, colocam esses cursos como segunda opção e, pela “facilidade” de aprovação, quando ingressam acabam abandonando, o que também justifica os números baixíssimos de formandos.

 

“Como são cursos mais fáceis de se entrar, entra bastante gente que não tem base para fazer o curso e, com isso muitos desistem no meio porque acham que não conseguem se formar ou demoram muito tempo e se formam com muitas dificuldades. Nesses cursos, entram muitos e se formam poucos e isso influencia na quantidade e na qualidade dos profissionais”, explica Alfredo.

 

A mão de obra desqualificada continua crescendo e perpetuando o ciclo de não aprendizagem nesta área. Para o professor Orivaldo, não aprender ciência vai além de não conseguir acertar questões em provas. “Acho que a falta de desenvolver o pensamento científico leva as pessoas a muita alienação. E acho também que isso afeta, sim, o julgamento das pessoas. Elas, de certa forma, apresentam um senso crítico mais limitado, o que acarreta num julgamento menos desenvolvido”, opina.

 

“Outro fator que também leva a um problema nas escolas está na falta de incentivo aos docentes. Essa falta de incentivo está na ausência de políticas públicas que auxiliem os professores”, lamenta Filho. Apesar das grandes dificuldades e barreiras no sistema de educação como um todo, Silva é otimista e sugere: “se conseguíssemos fazer com que as pessoas não aprendessem, mas sim notassem que elas sempre souberam um pouco do que é ciência, já que estão totalmente cercadas por ela, quem sabe, dessa forma, conseguiríamos incentivar o ensino e fazer com que gostem de ciências?”.

 

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