Observatório Luminar
Luminar é um observatório de mídia voltado para o acompanhamento sistemático da cobertura jornalística sobre políticas públicas. Acesse clicando aqui

Quando começa o feminicídio?

“Jovem é morta durante briga com o marido em Uberlândia”

“Corpo encontrado em Uberlândia é de jovem desaparecida”

“Mulher é encontrada morta e marido é detido suspeito de feminicídio em MG”

 

 

Histórias diferentes, mesmo resultado. Mulheres assassinadas. As vítimas de violência doméstica que ninguém vê. Todas as chamadas acima dizem respeito a feminicídios que ocorreram na cidade de Uberlândia em 2017. Oficialmente, a Polícia Militar relata que, de Janeiro de 2014 a Maio de 2017, foram 25 casos de assassinato de mulheres na cidade, nove somente neste ano.  

 

Essas notícias não são exceção, pois, infelizmente, viraram a regra da violência com marca de gênero. E, por trás dos gestos extremos, como os feminicídios, há um cotidiano de agressões e silenciamentos. Cláudia Cruz, presidente da ONG uberlandense SOS Mulher e Família, relata a dificuldade das mulheres em buscar ajuda: “por mais que a pessoa saiba que vive uma situação de violência, não necessariamente ela busca esse serviço”.

 

A equipe de reportagem da Conexões ouviu duas mulheres que expõem momentos dolorosos desse cotidiano que as inclui nas estatísticas brasileiras.   De acordo com a pesquisa DataSenado, uma em cada cinco mulheres brasileiras sofrem ou já sofreram violência. Destas,  26% delas convivem com seus agressores.

 

Coragem para denunciar

 

Thamyris o conheceu aos 15 anos de idade e engravidou aos 16. Treze anos mais tarde e com duas filhas, a estudante de Letras, hoje com 29 anos, leva à justiça sua luta pela guarda das filhas e para se livrar do agressor. Desde o início do relacionamento as atitudes grosseiras e agressivas eram visíveis, mas, após o nascimento da primeira filha, elas se tornaram físicas, relata. “Uma louça que estava na pia era motivo para ele me agredir. Principalmente quando estava sob efeito de bebida alcoólica”, recorda. Para ela, a juventude e a falta de renda própria a levaram acreditar que o companheiro poderia mudar: “Eu sabia que estava sendo agredida, mas não conseguia pensar em denunciar”. Thamyris conta que nunca pediu ajuda à família e, apesar dos familiares saberem do relacionamento agressivo, não houve qualquer denúncia até que se separasse do agressor. “Não sabia que tinha que pedir ajuda, achava que não precisava”, relata.  

 

A violência não era exclusivamente direcionada a ela, também atingia o dia a dia das filhas. Thamyris relembra  uma situação em que estava com a filha mais velha no colo: “ela tinha 8 ou 9 meses, ele chegou embriagado e com raiva, pegou ela do meu colo e me deu uma cabeçada na boca. Saiu e levou ela”. A estudante recorda que o agressor também batia na criança. “Eu me sentia impotente”, lamenta. Após o nascimento da filha mais nova, percebeu que as atitudes continuavam. Para ela, este tipo de situação “é um ciclo vicioso”.

 

A estudante de Letras explica que seu relacionamento teve duas separações. A definitiva, em fevereiro de 2016, quando ele a espancou. “Nesse momento vi que precisava pedir ajuda. Achei que iria me matar”, diz. O suporte veio de amigas e companheiras de faculdade. Thamyris foi à superintendência da mulher e buscou ajuda na ONG SOS Mulher e Família.  Todo o processo resultou em algo que “deu certo parcialmente”, segundo ela, já que o ex-companheiro começou ameaçá-la usando as filhas quando percebeu que “não ia ser mais meu proprietário”.

 

No dia dessa entrevista, Thamyris havia acabado de conseguir a guarda provisória das filhas. Ela avalia que a burocracia é um empecilho para as mulheres. “Fui na Delegacia da Mulher registrar um boletim e eles me encaminharam para o Batalhão. Disseram que lá o atendimento é só pra flagrante, relato é no Batalhão. Uma situação constrangedora. Fora o tempo que é gasto. Mais de uma ano e meio que eu tive que esperar para chegar ao processo de guarda provisória das minhas filhas”, lamenta.

Em média são atendidos três casos por dia na ONG SOS Mulher e Família. Foto: Ygor Rodrigues/Agência Conexões

 

Apoio

 

Não existem dados consolidados sobre os números da violência doméstica no município de Uberlândia. Cláudia Guerra, membro fundadora da ONG SOS Mulher e Família, afirma que há certa desconexão, pois os atendimentos prestados pela Polícia Militar, Polícia Civil, Delegacia da Mulher e pela ONG não são unificados. Na verdade, ela explica que há uma subnotificação, pois “o dado nacional é que só um terço busca ajuda”.

 

Fundada em 1997, a SOS Mulher e Família é uma organização da sociedade civil e fez 2.304 atendimentos de serviço social e outros apoios no ano de 2016. Voltada para atuação preventiva, com os atendimentos gratuitos busca minimizar situações de violência conjugal e familiar. A ONG desenvolve também algumas parcerias como a Patrulha de Atendimento Multidisciplinar (PAM) que, desde 2006, funciona em conjunto ao 17° Batalhão da Polícia Militar de Minas Gerais e fez cerca de 11 mil atendimentos.

 

Embora subnotificados a SOS Mulher e Família nota que algumas situações impulsionam denúncias e a busca por auxílio. “O que a gente percebe que intensifica a procura pelo atendimento são datas nacionalmente conhecidas”, esclarece Khayza Costa, assistente social. Cláudia Guerra também considera que o tema “toma uma proporção maior, quando vai na mídia. Muita gente que ouviu, no outro dia aparece”.

 

Dados da instituição demonstram que, de 2013 a 2016, é possível identificar  alguns facilitadores de violência contra mulher, como o uso de drogas (18%) e os ciúmes (13%). Nos registros, os tipos de violências  mais comuns são a psicológica, em 84% dos casos e a física, em 60%. Em 2016, por exemplo, o relatório aponta que as acolhidas eram em geral mulheres entre 26 a 45 anos, das zonas leste, oeste e norte de Uberlândia, com violências relacionadas a fim de relacionamento, drogas lícitas e ilícitas, infidelidade, intimidação e ciúmes.

 

As responsáveis pela SOS Mulher e Família criticam o tratamento dado ao assunto pelos poderes públicos. “Tem muitos anos que a gente faz fóruns, audiências e seminários, mas ainda não tem um juizado especial cível e criminal em Uberlândia, para operacionalizar a Lei Maria da Penha. Não temos sede própria, nossa subvenção é insuficiente para atender a demanda”, afirma Cláudia Guerra. A fundadora da ONG critica a supressão do termo “gênero” da discussão do plano municipal de educação que vai viger por 10 anos, assim como a inoperância da casa para abrigar mulheres com risco de morte e seus filhos menores de idade.

 

Para a presidente, da organização, Cláudia Cruz, antes de criar novas leis, é necessária fiscalização para que as políticas públicas já existentes sejam cumpridas. Todos os anos a ONG SOS Mulher e Família propõe a assinatura de uma carta de compromisso por candidatos a prefeito e vereadores da cidade, com 27 compromissos. “A gente não está reinventando nada. Estamos sugerindo que eles executem alguma coisa, porque o anexo (da carta) é resultado da Conferência Municipal dos Direitos das Mulheres”, sintetiza Claudia Cruz, presidente da organização.

 

Silêncio

Quem acompanha a luta e os movimentos pelos direitos das mulheres sabe que no feminicídio e na agressão à mulher o silenciamento é a regra. Os números são subnotificados e a cultura ainda é um impedidor para que as vítimas se sintam acolhidas. Esse é o caso da estudante universitária  de 23 anos que não quis se identificar, mas relatou à Conexões uma faceta da sua história de vida.

 

Minha família é muito unida e grande. Tenho uma prima com pouca diferença de idade. Com 16 anos ela estava casada e grávida. A minha casa era no mesmo terreno que a dela. Nessa época, eu tinha 12 anos, meus pais trabalhavam o dia inteiro, minha irmã não ficava em casa e minha prima também trabalhava. O marido dela, que sempre foi visto como uma boa pessoa, ficava a tarde em casa.  

 

Eu sempre fui muito livre, meus pais davam essa liberdade e em casa eu ficava com as roupas que eu queria usar. Um dia, estava dormindo. Acordo com uma mão na minha bunda. Assustada, lembro que ele falava pra mim: “fica caladinha, você sabe que está errada, olha o jeito que você está”. E eu falava: “estou na minha casa, me deixa”. Nas primeiras vezes, achava que estava sonhando. Ficava com a sensação de que era mentira, não aconteceu.

 

Até que outro dia, acordei com ele se masturbando do meu lado. Ele falava: “se você gritar eu vou falar que a culpa é sua, porque você está se expondo”. Com 12 anos já tinha corpo de mulher, definido. O marido da minha prima me assediava, ainda falava: “fica quietinha porque senão eu vou falar pra minha esposa e ela vai falar que você deu em cima de mim”.

 

Ficava muito desesperada com isso. Eu saía de casa e sentava na praça, sozinha ou com amigos, tinha medo de ficar na minha casa. Nunca tive coragem de falar com minha mãe sobre o que estava acontecendo. Não porque achava que ia jogar a culpa em mim. Eu tinha medo da reação dela, porque é bem protetora, assim como meu pai. Ele seria capaz de estragar a vida dele pra me defender. Essa situação só parou quando, com uns 13/14 anos, eu arrumei um namoradinho. Eu não queria namorar, mas era uma companhia pra eu não ter medo de ficar em casa.

 

Outra situação que aconteceu comigo: tem uma amigo da família que já namorou minha tia por muito tempo. Às vezes, minha tia queria sair com ele, eu ia cuidar dos filhos dela. O cara tinha uns 40 anos na época. Acordava com ele deitado em cima de mim. Foi na mesma época da situação com o marido da minha prima. Pensava: “devo estar fazendo alguma coisa de errado. Devo merecer que eles me encostem”.

 

Minha tia chegava em casa e ia tomar banho. Ele ficava, queria a todo custo fazer massagens em mim. Acordava com ele fungando e passando a mão. Hoje em dia, tenho repulsa de gente fungado em mim. Ele tirava toda minha roupa pra poder fazer a tal massagem. Eu me perguntava: “por que ele tem que tirar toda minha roupa pra fazer massagem nas costas? Por que colocar sua perna no meio da minha?”. Tinha toda aquela sensação estranha: “é coisa da minha cabeça. Ele está enrolado com minha tia. Só quer fazer a massagem mesmo”. Sabia que, no fundo, isso estava errado, mas tentava me enganar para me sentir menos ruim. Isso durou até meus 15 anos mais ou menos.

 

Por causa dessas situações eu tinha nojo das pessoas com quem namorei depois. Não gostava que me encostassem e tocassem. Nojo da pessoa me abraçar e respirar mais fundo. Depois desses episódios na pré-adolescência, comecei a ficar com vergonha de mim, me vestir com roupas mais largas, mais masculinas, pra tentar me esconder. Comecei a engordar e percebi que as pessoas não estavam mexendo tanto comigo. Pensei: “vou engordar bastante, pra ninguém mexer comigo”. Cheguei a pesar 110 quilos.

 

Ainda hoje esses dois caras frequentam a minha casa, ainda me assediam, quando vão me cumprimentar falam no meu ouvido: “nossa, tá cheirosa”. Não tenho coragem de contar para meus pais, mesmo sendo adulta. Hoje, com meu namorado, por mais que ele me respeite, tenho medo de falar não. Me sinto obrigada em fazer as coisas para ele. Estudando sobre violência contra mulheres, penso que a violência não é só a penetração. Eu me senti violentada. Era meu espaço. Não queria aquela mão na minha bunda, no meio da minha pernas. Não foi tão grave a ponto de machucar fisicamente, mas me machucou psicologicamente. Me sentia uma vagabunda e suja.Eu sei que não precisava ter aguentado aquilo tudo, mesmo com minha preocupação com meus pais. Fico pensando: “será que se eu tivesse contado no primeiro momento eu passaria por tudo isso?”.

 

 

Agência Conexões
agenciaconexoes@gmail.com
No Comments

Post A Comment