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UFU oferece rede de apoio em saúde mental gratuita durante quarentena

Além dos dez meses de pandemia e da readaptação do cotidiano, a população mundial teve que lidar com muito mais do que o medo da COVID-19. Em meio ao isolamento e aos casos diários de infecção, ainda foi preciso lidar com os problemas que vieram junto dessa nova rotina.

A saúde mental, tema antes encarado com certo receio, tornou-se, do dia para a noite, assunto amplamente discutido. Pensando nisso, a Conexões entrevistou a enfermeira e professora Fabíola Alves Gomes. Além de trabalhar no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HC-UFU), a docente do Curso de Graduação em Enfermagem, é coordenadora da Divisão de Saúde (DISAU) da UFU e também faz parte da Coordenação Estratégica do Projeto Proteger-se..

O Projeto Proteger-se iniciou em abril e está vinculado às Pró-reitorias de Extensão (PROEXC), Gestão de Pessoas (PROGEP) e Assistência Estudantil (PROAE). E conta ainda com docentes da Faculdade de Medicina do Instituto de Psicologia, além de ter diversos projetos parceiros. O objetivo é oferecer uma rede de apoio em saúde mental, que possibilite reduzir os efeitos da pandemia em toda a comunidade UFU e na sociedade como um todo. Na entrevista, a professora explica o funcionamento da proposta e dá dicas sobre como manter a saúde mental em meio ao isolamento social imposto pela pandemia de COVID-19.

Conexões: Você pode explicar como funciona o processo de acolhimento das pessoas que passam pelo projeto?

Fabíola: O projeto Proteger-se conta com cinco consultórios virtuais e uma recepção. Qualquer pessoa que precise de atendimento pode acessar o link e conectar ao plantão que funciona de segunda à sexta-feira, das 8h às 21h. Nesse período, terá um profissional fazendo o acolhimento, que vai te ouvir num primeiro momento, para entender qual a sua necessidade. Então, você será encaminhado aos atendentes da área de saúde mental, que vão te escutar. O grande diferencial é que não precisa agendar um horário. Você pode simplesmente chegar e ser atendido. Caso o profissional que fez o atendimento entender que você precisa de mais consultas, ele pode pedir seu retorno. Nesse caso, cada pessoa pode ter até três consultas com o mesmo profissional. Assim, ele consegue entender suas necessidades e melhor te acompanhar ou encaminhar para um projeto parceiro. Se for um caso mais grave, que precisa ser encaminhado para uma psicoterapia a longo prazo, ou um caso de emergência, então podemos fazer esse encaminhamento para a rede municipal de saúde. Mas você também pode entrar uma vez, resolver seu problema e se, no dia seguinte, precisar novamente, é só entrar e ser atendido por outro profissional. E isso é o mais importante: o atendimento é aberto pra quantas vezes você quiser!

Fabíola aponta para a importância de pedir ajuda e de saber que não se está sozinho. Arquivo Pessoal.

Conexões: E o Proteger-se é ofertado apenas para a comunidade UFU, ou a comunidade externa também pode participar?

Fabíola: Temos a PROAE, que tem como foco do projeto os estudantes, a PROGEP, que foca nos servidores da Universidade Federal de Uberlândia, e também a PROEX, uma vez que nós temos também outras pessoas fora da universidade participando e sendo atendidas. Toda a comunidade externa também pode participar dos atendimentos. O IFTM é um dos parceiros que estão sendo atendidos, e também a Polícia Federal, a Polícia Militar, o Corpo de Bombeiros, a SPDM, que é a empresa que faz a gestão do Hospital Municipal e do Anexo. Essas seriam as pessoas que estão na linha de frente da pandemia.

Conexões: Então, qual é a atuação dos projetos parceiros que possibilitam o atendimento externo dentro do Proteger-se?

Fabíola: Dentre os parceiros, podemos citar o Recore, projeto vinculado com o Instituto Visão Futuro, que atuam com ressignificação, reconexão e, basicamente, trabalham com técnicas de relaxamento, massagem, meditação. Também temos o Quarentena Poética, que realiza uma adaptação da Clínica Poética, que já acontecia antes da pandemia, e é basicamente voltado para as pessoas que têm uma afinidade pela arte. Eles usam muito a expressão corporal, a dança para trabalhar as questões de saúde mental. Outro projeto que está acontecendo é o Medita UFU, que ministra uma meditação guiada.Tem dias específicos pra acontecer cada atividade, então é só entrar e participar. Tem o GT.com, que é um grupo terapêutico comunitário, ofertado também em um horário fixo. Esses projetos parceiros fazem parte do proteger-se e é só entrar no site da UFU para conhecer todos.

Conexões: Com a pandemia perdurando tantos meses, várias notícias relataram um aumento da violência feminina doméstica. O projeto atende esses casos?

Fabíola: Foi bom você falar desse ponto. É importante lembrar que muitas mulheres ficaram presas em casa com seus agressores. E o Proteger- se também tem projetos de acolhimento para essas mulheres. Temos o NuaVidas, que trabalha mais com a saúde e a questão da violência, e o Todas Acolhidas que atua mais na parte jurídica.

Conexões: Você acha que a pandemia aumentou, de fato, a preocupação com a saúde mental?

Fabíola: Não sei se posso falar de pontos positivos da pandemia, mas vamos falar de aprendizados da pandemia. Uma das coisas que eu acho que trouxe em voga, foi a questão da preocupação em relação à saúde mental, sim. E eu acho isso muito importante, porque, muitas vezes, as pessoas banalizam essa questão. Sempre escutamos: “Ah, depressão não existe”, “Esse ‘chororô’ seu é à toa”, “Você tem que arrumar uma roupa para passar”, “Tem que melhorar sozinha, você consegue. Você tem que ser forte”, … E na verdade a gente sabe que os transtornos mentais são uma doença orgânica. Às vezes a pessoa não consegue sozinha e ela vai precisar de ajuda. E assim como a pessoa tem pressão alta, tem diabetes e vai precisar tomar um remédio pra controlar pressão alta e diabetes, muitas vezes ela vai precisar de medicação para controlar essa ansiedade, essa depressão, essa tristeza que ela sente. Entretanto, ela não procura porque ela tem vergonha, porque tem todo um estigma sobre isso. Então, sim! Eu vejo que a pandemia aumentou a preocupação das pessoas e dos órgãos de saúde com relação à saúde mental. E eu acho que é uma coisa que nós temos que aproveitar para divulgar e falar para as pessoas que elas não estão sozinhas. Elas têm ajuda, e podem procurar ajuda.

Conexões: A UFU recebe muitos alunos de outros estados em seus cursos de graduação e com a pandemia alguns deles não conseguiram voltar para casa durante a quarentena. O que você recomenda para lidar melhor com essa situação?

Fabíola: O mais importante é nós trabalharmos a questão do isolamento. Então, tentar mitigar com as tecnologias o que for possível. Se o isolamento está muito difícil ou está morando em outra cidade sem conseguir voltar, tentar usar as mídias e as tecnologias para poder se aproximar. Outra coisa que eu acho que seria bem interessante é se organizar, criar uma rotina de estudo e de trabalho. Se você não tiver disciplina e um horário para fazer as coisas, você vai se perder. Isso atrapalha muito, porque sem rotina, você começa a protelar as coisas e fica cada vez mais ansioso. Somado a isso, tem a questão hormonal, do nosso relógio biológico. Se você não se organiza, seu organismo começa a entrar em falência. Aproveitando o gancho também, dormir no mínimo de seis a oito horas de sono por dia e ter horários para isso, é o ideal. Evitar tomar bebidas cafeinadas, ingerir álcool, levar o celular pra cama, deixar a televisão ligada para dormir. São coisas que podem dificultar o sono. Outra coisa que ajuda são hábitos alimentares saudáveis. Às vezes comemos compulsivamente e, muitas vezes, ultraprocessados. Hábitos alimentares saudáveis têm relação direta com a saúde mental. E o Proteger-se também tem parceria com um projeto de nutrição, que trabalha um olhar acolhedor para a questão da alimentação, com um grupo voltado para discussão e orientação. Além disso, também praticar exercícios físicos. Tentar fazer dentro do que for possível para você e aproveitar que várias pessoas estão oferecendo aulas online e gratuitas. E, por fim, lembrar que você não está sozinho, que pode pedir ajuda. Se você acha que não está conseguindo, aproveite o que tem disponível hoje, que é o projeto Proteger-se. É só acessar a página e a qualquer momento falar com um profissional de saúde. Isso é super importante. Lembre que você precisa se cuidar.

Anna Júlia Lopes
annajulialrodrigues@gmail.com
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