Observatório Luminar
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Um lugar para chamar de meu

A Conexões conheceu uma chefe de família que recentemente realizou o sonho da casa própria através do Minha Casa, Minha Vida. Desde criança Crislene morava de aluguel com a mãe e os irmãos; agora conquistou sua casa. Foto: Isabella Rodrigues Marcamos nosso encontro, logo pela manhã, em uma praça no centro da cidade. Após algum tempo de espera, a vejo chegando afobada e desculpando-se pelo atraso. Digo que não tem problema e sugiro procurarmos um dos bancos que tenha uma sombra. Antes mesmo de sentar, ela se apressa em contar os detalhes do acontecimento que originou a entrevista. “Fiquei sabendo que meu nome havia saído no sorteio por uma amiga. Aí eu falei: ué, mas não era só em abril? Fiquei surpresa e naquela expectativa de ‘será que eu fui, será que não fui [sorteada]…’ Cheguei em casa e meu telefone já começou a tocar disparado, de tanta mensagem me parabenizando porque todo mundo já estava sabendo! (risos). E minha filha ligando pra falar que meu nome estava na lista da Prefeitura, uma loucura! Eu não acreditava, fiquei no ar! Quando a ficha começou a cair, fiquei numa felicidade enorme. Sabe quando você quer gritar pra todo mundo?” Numa mistura de alegria e ansiedade, quem relata todas essas sensações é Crislene Arantes, de 50 anos e uma das sorteadas do Programa Minha Casa, Minha Vida (PMCMV).
Desde 2009, quando o projeto foi lançado pelo Governo Federal, milhares de brasileiros substituíram o aluguel pelas prestações a preço popular, é o sonho da casa própria. Em Uberlândia, Crislene foi uma das 3.200 pessoas contempladas no sorteio do PMCMV do dia 19 de março. Ela afirma que depois da conquista, não sonha com mais nada. “O meu desejo mesmo era ter a minha casa. Mas para falar a verdade, sonho eu não tenho. Vou deixando as coisas acontecerem naturalmente”. Ela e os demais sorteados irão morar no Residencial Pequis, que está em construção na zona oeste da cidade. Além das residências, o novo bairro contará com cinco escolas, uma Unidade Básica de Saúde e um Centro de Referência de Assistência Social (Cras). Em uma Área de Proteção Permanente (APP) também será feito um parque com pista de caminhada e de skate, juntamente com academia ao ar livre e brinquedoteca. A previsão para a entrega das casas é outubro deste ano.
 
“EU ERA PAI E MÃE DENTRO DE CASA”

Trabalhando como copeira de um hospital no sistema 12×36 (trabalha 12 horas seguidas e folga nas próximas 36 horas), Crislene mora de aluguel com o filho mais novo e conta que só com seu salário não conseguiria comprar uma casa. “Já tentei fazer um financiamento, mas ficava no valor de R$57 mil e eu não tinha o valor da entrada, então eu ficava aguardando… um dia ia chegar minha vez, né?”. Inscrita desde 2009 no Programa, ela pensa que poderia ter se inscrito há mais tempo. “Era difícil pensar em ir [se inscrever] antes porque as crianças eram menores e tinha a questão das casinhas serem longe. Como eu ia vir trabalhar? E eu era pai e mãe dentro de casa, então fui deixando”. 

A copeira era pai e mãe porque criou sozinha os três filhos: Marylla, que mora em Uberaba com o marido e os filhos, Camila, que não vive mais com a mãe, e o caçula Hugo, que se forma em Educação Física pela UFU esse ano. Emocionada, ela lembra que se separou do ex-marido quando as crianças ainda eram pequenas e voltou a morar com a mãe. Desde então, sustentou a casa sozinha. “Mas eu não criei meus filhos contra o pai deles. A gente não deu certo, mas eles não tiveram culpa. Só acho que meus filhos não têm aquele amor de pai, sabe? Igual a mim, porque eu também não tive, e sei que faz muita falta”. 

Entre uma memória e outra, Crislene vai contando suas histórias como se estivesse desabafando. “E tem outra coisa que me esqueci de contar… Quando eu me separei do pai deles, estava e grávida de quatro meses do Hugo. Depois que ele nasceu e com 28 dias de resguardo eu já comecei a trabalhar porque tinha que amparar as crianças”.  Sentida, ela ainda lembra a razão da falta de ajuda do pai dos filhos. “Quando eu falei que estava grávida, ele disse que o filho não era dele. Imagina! O menino hoje é a cara dele”. 
 
CRESCIMENTO DOS FILHOS E FUTURO

Depois de sair da casa mãe, Crislene começou a pagar aluguel e a trabalhar cada vez mais. Comovida, ela relata que por muito tempo não conseguiu acompanhar o crescimento dos filhos. “A fase de adolescência deles foi muito difícil, porque eu trabalhava e cada um ficava num canto. Não tinha como ficar de perto participando da infância e indo às reuniões de escola. Outras pessoas que faziam isso pra mim”.

A copeira se diz uma vencedora e sente-se orgulhosa por ter conseguido preparar os filhos para a vida, apesar de nem sempre ter sido destemida. “Teve uma época que eu achava que não daria conta de mais nada, queria largar tudo e ficar quieta. Mas eu pensava: não posso, tenho que trabalhar e ter minha casa. E se um dia acontecer qualquer coisa comigo, onde meus filhos vão ficar? Aí Deus me dava mais força pra continuar.”

Pergunto se agora, depois de ter conseguida a casa, em um emprego estável e com os filhos criados, ela não pensa em um novo relacionamento. Decidida, diz que não. “Não quero problemas pra mim, estou muito bem assim. Chego em casa, faço o que quero, do meu jeito e sem ninguém falar nada. Meu filho se vira muito bem sozinho e não me preocupo nem com a comida dele”. Ela ainda afirma que não quer procurar por ninguém. “Se um dia aparecer uma companhia, vai ser tudo naturalmente”.  

Após posar para algumas fotos e antes de nos despedirmos, Crislene lembra que o novo bairro que irá morar em breve é longe, mas se diz despreocupada em relação a isso. “Eu penso que até lá já tenho condições de vir trabalhar por ter ônibus sentido bairro-centro. Porque hoje não tem mais lugar longe em Uberlândia, né? (risos). Então quanto a isso eu nem estou preocupada. Só quero entrar dentro da minha casa e pronto”.
 

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